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Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.
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terça-feira, setembro 14, 2004
DAS PRÁTICAS AFETIVAS "Como assim não gosta de beijo na boca?" "Não gosto. Só isso. Não tem nada pra explicar." "Como é que alguém pode não gostar de beijo na boca? É a coisa mais natural do mundo!" "Natural? Alguém ‘inventou’ o beijo na boca. Ou você acha que o homem das cavernas dava beijo na boca?" "Não sei." "Se você fosse uma mulher das cavernas, iria entender se eu não gostasse de te puxar pelo cabelo?" "Não. Mas você me beijou muito quando a gente se conheceu, lembra?" "Se eu não te beijasse, como ia conseguir te levar pra cama?" "Então de sexo você gosta..." "Claro." "Pelo menos isso." "Mais ou menos... O que eu não gosto mesmo é de trocar saliva na esquina, de dar beijinho depois de comer um cachorro-quente, de acordar de manhã com bafo de alma e ter que compartilhar com alguém." "Você tá falando de situações específicas. No cinema você também não gosta?" "O povo beija no cinema como se fosse o único lugar escuro do mundo. Basta entrar no cinema e todo mundo já fica com aquela vontade incontrolável de passar a língua na pessoa ao lado." "É claro." "Como é que se presta atenção no filme desse jeito? Aliás, essa dispersão fisiológica deve explicar as opiniões da maioria das pessoas sobre os filmes." "Eu acho que o beijo na boca só existe porque é proibido transar em público." "Que necessidade é essa de fazer coisas em público? ‘Meu bem, vamos trepar perto daquele coqueiro da praça? Vai ser divertido. Alguém pode pegar a gente em flagrante. Que aventura!’ Aí alguém pega mesmo e os dois ficam com aquela cara amarela de mingau passado. Sinceramente, prefiro a comodidade e a privacidade de uma boa e velha cama. Se possível de mola, que é pra poupar esforço." "Mas nós estamos falando de beijo." "Pois é. Quanto ao beijo, eu detesto fechar os olhos. Só fecho os olhos pra dormir. Na serenidade do lar. Em lugares públicos, tenho a paranóia de achar que alguém pode chegar por trás e me acertar a cabeça com um machado." "Então não fecha." "Toda mulher reclama se o cara não fecha os olhos durante o beijo." "É verdade. Mas você pode fingir que eles estão fechados." "Já tentei." "Não funcionou?" "Não." "Que pena. Olha, eu tenho que ir pro trabalho agora. Chego em casa à noite, ok?" "Ok." "Vê se prepara um rango pra nós." "Tá." "E coloca aquela roupa sexy de bombeiro pra me esperar." |