Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.



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quarta-feira, outubro 13, 2004
 
UMA EXIGÊNCIA RAZOÁVEL


"Prezado Senhor Publicitário-Chefe da Coca-Cola do Brasil,

Com o fim dos Jogos Olímpicos e o iminente encerramento da temporada das eliminatórias sul-americanas para a Copa do Mundo de 2006, a histeria esportiva de 2004 está prestes a ser devidamente confinada nas prateleiras invioláveis do passado, para deleite superlativo de grande parte da população razoável mundial.

Congratulo-me, não obstante, com a Coca-Cola, empresa que salpica o cotidiano de todos nós com pequenas alegrias diárias, pelo excelente trabalho realizado em favor da promoção do esporte e do bem-estar do telespectador sedento, para quem pipocas a seco seriam demasiadamente intragáveis para acompanhar os melhores momentos de um entretenimento de qualidade.

Ditas estas amenidades, pretendo abordar agora o delicado e substancial motivo desta correspondência, uma vez que, tenho certeza, a Coca-Cola está consciente da absoluta necessidade da continuidade de seu essencialíssimo trabalho no ramo das beberagens amigáveis.

No último sábado, eu e alguns amigos assistíamos ao jogo do Brasil contra a Venezuela pelas eliminatórias quando, como de costume, a logomarca da Coca-Cola invadiu o canto superior direito da tela. Até aí, nada de anormal. Eis que, ao invés de um
"beba coca-cola" ou "sabor pra valer", a logomarca veio acompanhada de um bizarríssimo e surpreendente bordão lacônico, que causou um leve estado de pânico em todos os presentes. Disse o locutor, em tom sinistro e fúnebre:

"Atenção: as míni-garrafas olímpicas acabaram."

Fiquei paralisado por alguns breves minutos esperando, em vão, um complemento ou um consolo do tipo:
"mas fique tranqüilo, pois conquanto as garrafas olímpicas acabaram, as paragarrafas olímpicas continuam sendo distribuídas normalmente, umas sem o bocal, outras sem o fundo".

Naturalmente, achei a propaganda curiosa, peculiar, e pus-me a divagar acerca de suas prováveis finalidades. Concluí que uma delas, extremamente deletéria e de mau gosto, seria deixar infelizes os numerosos colecionadores de míni-garrafas olímpicas país afora.

Ao que parece, e corrija-me se eu estiver enganado, a propaganda só intentava mesmo comunicar que as míni-garrafas olímpicas tinham-se acabado; que nada mais poderia ser feito a este respeito e que o assunto estava, dali para a frente e para todo o sempre, encerrado.

Entusiasta da empresa e conformista que sou, aceitei de bom grado não tocar mais no assunto das míni-garrafas olímpicas. Contudo, creio ser uma exigência mais do que razoável a resposta para as seguintes questões: 1) por que cargas d’água alguém anuncia o FIM de uma promoção? 2) Como este tipo de informação pode afetar positivamente as vendas dos produtos da Coca-Cola no país? E finalmente: 3) que tendência publicitária ultramoderna é esta, cujo único significado perceptível tem por objetivo entristecer o consumidor?

Creio que o senhor entenda a insuportável aflição de espírito causada por estas dúvidas de dimensões pantagruélicas. Sinto-me, desde sábado, como uma vaca que rumina no pasto largo e infindável da ignorância. Espero que possa me ajudar.

Sinceramente,

Guilherme Cruz Lessa"





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