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Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.
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quarta-feira, abril 13, 2005
EM FAVOR DA SOCIEDADE DIVIDIDA A seriedade estraga as pessoas. No último fim de semana, eu tive umas cinco piadas avacalhadas por uma moça. Tudo nela era sério. Os pés dela eram sérios, o joelho dela era sério, a cintura era absolutamente irredutível. Minha sorte foi a manga comprida. Um sovaco austero teria me tirado a tranqüilidade necessária para fazer qualquer comentário razoável durante a noite. Pois bem, a moça era séria e, o que é pior, levava tudo a sério. Rigorosamente tudo. Cada vez que eu abria a boca ela já me olhava ansiosa, louca para poder discutir o que eu ia dizer. “Esse comentário é machista.” “Conclusão muito preconceituosa.” “Elitista! Elitista!” E enquanto eu ouvia aqueles berros, dava outro gole na minha latinha e pensava na quantidade de gente que cai no conto do vigário. Que conto do vigário?, você pergunta. Ora, o maior conto do vigário que existe. O único, soberano e seriíssimo conto do vigário da sociedade bonitinha, que faz milhões de pessoas, de ongueiros a vegetarianos, acreditarem na possibilidade da coletividade sem preconceitos, pacífica e harmoniosa. Onde já se viu? Imagine um mundinho onde os pretinhos vivem em harmonia com os branquinhos, que tomam chá com os viadinhos, que por sua vez discutem pacificamente uns pontos de vista com os amarelinhos, que gostam sobremaneira dos velhinhos e velhinhas – todos na perfeita integração cosmopolita de São Sebastião. Imagine isso! Vai contra tudo que me parece razoável. A segregação, de acordo com as minhas análises mais minuciosas, seria um caminho muito mais lógico. Eu não teria que conviver com a mulher barbada, por exemplo, que me dá nojo. Nem tampouco com a Miss Brasil, cuja simples existência já me faz infeliz. A Miss Brasil está para mim assim como o frango assado da padaria está para o faminto. Você olha praquilo. Você se aproxima. Se tiver sorte, você até conversa com aquilo. Aí chega uma hora em que você tem a ilusão de que aquilo nem é tão diferente assim de você. E quando diz que quer comprar, surge um Alexandre Frota da cozinha e arremessa você na calçada, pela janela da padaria. A segregação significaria uma vida com menos sofrimento. Estou errado? Ao nascer, seu primo bem dotado seria logo enviado ao MIT, e lá ficaria, ao invés de encher a sua orelha com considerações estratégicas acerca de um complicadíssimo jogo chinês que você não entende. Isso sem falar no País da Lentidão, que nacionalizaria todos os que transformam as coisas simples do cotidiano em eventos tediosos e demorados. O telefone toca. Eu atendo. “Alô?” “Alô. Fulano está?” “Não.” “Pô, eu achei que estivesse.” Mas, meu deus, pra quê esse último comentário? Qual é o problema do simples e prático “obrigado e tchau”? “Pois é. Ao contrário do que você previu, Fulano não está. A propósito, eu tenho em mãos uma passagem de avião pra você. Sabe pra onde?” Ah, não. Não dá pra conviver com gente assim. Não dá pra conviver com quem é muito diferente. Sabe, eu até gosto dos diferentes. Mas é que eu não combino com eles. A menina do joelho sério acredita numa sociedade aberta. Numa sociedade em que o meu bom humor tenha que conviver gostosamente com todos os argumentos engajados dela. É como se ela dissesse, apontando com aquele indicador de Tio Sam em época de guerra: “Eu quero você na minha comunidade.” E isso não é certo. Não é. Isso definitivamente não é justo. Segregação já! |