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Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.
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terça-feira, abril 05, 2005
NAÇÃO DE IDIOTAS O que o brasileiro quer? O brasileiro quer estar junto. Nenhum outro povo assimilou tão bem a idéia do “novo associativismo” como o nosso. Nós nos juntamos para fazer qualquer coisa: para invadir propriedades de terceiros, para ver acidentes de trânsito que espalham corpos mutilados pelo asfalto, para gritar “pula! pula! pula!”, para eleger o Lula e para outras tantas saudáveis atividades. Mais recentemente, descobrimos uma nova e excelente maneira de nos juntarmos. Somos, simplesmente, 66,4% dos associados do Orkut. Ou dois terços. Atrás de nós, estão alguns povos igualmente associativos, como os da Índia, do Paquistão e do Irã. O caso é que nós, ao contrário deles, não nos contentamos em “estar” no Orkut. Nosso associativismo é assombroso. 95% das comunidades foram criadas por nós. Nós não queremos apenas “juntar”, nós queremos “pertencer”. Pertencer a um grupo maior, de preferência a um grupo majoritário. Nosso sonho é participar de um gigante grupo cósmico, que a todos envolve. Um grupo de cujo campo gravitacional nada e nem ninguém escapa. Para isso, criamos as comunidades óbvias. Aquelas que fazem o internauta pensar assim: “ Eu também odeio ficar preso no elevador. Eu tenho que participar dessa comunidade!” Há milhares delas, dentre as quais eu posso citar, de memória: “Odeio sentir saudades”. “Odeio barulho de obra”. “Odeio ônibus lotado”. “Eu amo beijar na boca”. E já que eu também sou associativo, além de extremamente brasileiro, pensei em algumas comunidades óbvias que poderiam auxiliar na consecução de nossos mais honrosos propósitos de pertencimento. Eis. “Odeio lamber chão de banheiro”. “Adoro coisa boa”. “Não quero matar a minha filha”. Outras comunidades pelas quais nos interessamos são aquelas de rotina. Aquelas cujo título relaciona-se com nossos afazeres corriqueiros, cotidianos. Elas são criadas da seguinte maneira: imagine que eu fique empolgado e queira criar comunidades de rotina no Orkut. Aí eu compro um caderninho e escolho um dia, sei lá, segunda-feira, para inventar comunidades. Na segunda em questão, eu acordo às nove. E anoto. “Eu acordo às 9”. Minha mãe me oferece um meio mamão no café da manhã. E eu anoto mais duas: “Odeio mamão no café da manhã”; “Minha mãe sempre me oferece mamão no café da manhã”. Saio de casa atrasado para o trabalho. “Sempre tenho que correr pra chegar no trabalho sem atrasar”; “Odeio ter que bater ponto”. Chegando lá, meu chefe me dá um esporro. “Meu chefe odeia que eu chegue atrasado”; “Meu chefe tem TPM”. E assim vai. Calma que eu ainda não acabei. Investigativo que sou, além de essencialmente associativo e muito brasileiro mesmo, consegui identificar ainda outro tipo de comunidade. As comunidades vaidosas. “Eu tenho olhos azuis”; “Sou mulher de peito”; “Adoro meu sobrenome”. E aqui também tenho sugestões a serem consideradas, tais como “Não tenho a perna torta”; “Meu mamilo é rosado”. Para não me estender muito, e dado que este é apenas um estudo preliminar, finalizarei mencionando as comunidades psicológicas. São as melhores. Denunciam os problemas mais sérios de uma pessoa. Outro dia, achei uma formosa rapariga catarinense no Orkut. E então entrei em suas comunidades para ter uma idéia de suas obviedades, de sua rotina e de suas vaidades. Lá pelas tantas, percebi que duas das comunidades dela não eram congruentes. Uma estava no começo da lista, a outra no final. E liam assim: “Durmo com o celular do lado” e “Odeio acordar com telefone!”. Que tipo de pessoa odeia acordar com telefone e dorme com um celular debaixo do travesseiro? Conclusão: nunca fiz contato com a catarinense. Ou seja, o Orkut, por mais que o maldigam, tem lá a sua utilidade. Aliás, o Orkut é excelente nisso de escancarar contradições. A comunidade “Odeio gente lerda”, por exemplo, conta hoje com mais de 82 mil adeptos. E 82 mil adeptos, de qualquer coisa que seja, não podem ser exatamente espertos. Nota final sobre o Brasil, para não fugirmos do tema central do brasileiro, é sobre o Programa da Hebe de ontem. Não que a Hebe não seja surreal normalmente – tente entender o programa só com os close captions e vai finalmente compreender o que é dadaísmo. Mas ontem foi demais. Estavam lá a Valéria Valensa – que a Hebe insistia em chamar de Valéria Ualensa, talvez por causa do “w” que não existe no nome da moça –, o filho da Valéria Ualensa, uma outra mulata-atriz-qualquer e o Ratinho. Eles conversavam animadamente. Sobre um tema banal qualquer? Não, sobre o Papa. A Hebe, o Ratinho, a mulata, o filho da mulata e a outra mulata conversavam sobre o Papa. Lá pelas tantas, toca uma música do nada e todos começam a dançar dança de salão. O programa vai para o comercial e depois eles voltam ao ar, e novamente põem-se a discutir a questão da sucessão do Papa. Enfim, parece-me que Hebe e Orkut são bem representativos das nossas brasileiras preferências. E dá-lhe nós! |