Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.



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terça-feira, maio 10, 2005
 
ANTIPATIA CIRCUNSTANCIAL


Raramente antipatizo com alguém.

Pessoas estúpidas dificilmente me incomodam. A burrice, como o sabem todos, é fonte inesgotável de inspiração para poetas, políticos e, especialmente, comerciantes.

Pelos chatos, cultivo certa compaixão. Chatos nascem chatos, e criticá-los é como reclamar da pessoa que tem uma pinta cabeluda no braço.

Quanto aos feios, bom, aí também não. Tem limite pra tudo.

Dá pra conviver com uma pessoa feia, mas não com uma muito, muito feia.

O mesmo vale para os bonitos. Beleza demais é esquisitice e, portanto, é insuportável.

O fato é que desgosto de muito poucas pessoas.

O que não significa que eu queira dividir a minha mesa de bar com quase todo mundo.

Não. Não é isso.

Mas divago, como de costume.

Procrastino desimpedido e feliz, como exige minha natureza diletante.

O que quero dizer é que não detesto ninguém por suas ações.

São, antes, as “circunstâncias” de uma pessoa que me levam a detestá-la.

Não há nada de errado no ato de comer mexericas, por exemplo; mas se entro num elevador e tem alguém comendo mexerica, passo a odiar a pessoa.

Ninguém tem culpa de estar à minha frente na fila, mas sempre acabo com o mesmo raciocínio interior:

“Que nuca ridícula. Que bunda ridícula. Essa pessoa é toda ridícula por trás. Tenho pena dessa pessoa. Ela é horrível.”

Nunca houve e jamais haverá, em qualquer sala de espera – seja de médico, dentista ou cromoterapeuta – um ser humano simpático.

Pessoas sentadas no ônibus lotado são igualmente péssimas, ainda que tentem disfarçar o espírito vil oferecendo ajuda para segurar as coisas dos que estão de pé.

Os clientes que são atendidos antes de mim no restaurante, não resta dúvida, deviam ser queimados vivos.

E quem quer que esteja a menos de dois metros da minha cadeira no cinema ou no teatro é um idiota irremediável, sendo sua idiotice proporcional ao tamanho do saco de pipocas que tem no colo.

Em suma, e acho que me faço claro, as inimizades e as antipatias são fruto do acaso besta e não de posicionamentos divergentes acerca das grandes questões da humanidade.

Este o motivo pelo qual sempre me pego no mesmo diálogo.

“Não gosto de Fulano.”

“Que estranho. Fulano é tão legal.”

“Fulano é legal mesmo.
Odeio ele com todas as minhas forças.”

“Mas por que?”

“Não sei. Só quero que ele tenha um enfarto agora e morra.”




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