Não tenho nada contra o trabalho silencioso, diligente e realizado por outras pessoas.



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segunda-feira, maio 16, 2005
 
LORD OF THE MEATS (Parte 1)

A Sociedade da Carne



Escondido na sombra de uma meia árvore, eu procurava algum lugar para atiçar aquele maldito pedaço carne que tinha na bochecha esquerda.

Estava na minha boca havia mais de dez minutos.

Tinha sido preparado pelo anfitrião, o próprio dono do sítio.

Com uma panela de alumínio na mão e a expressão de cozinheiro realizado, ele oferecera:

“Essa é a minha predileta. Aceita, Lessa?”

E eu, apontando a castanha de caju, “gosto de tira-gosto.”

“Essa carninha é tira-gosto, porra! Come aí.”


Sem jeito e sem vontade, alcancei um palito.

Ignorante do que a minha vida se tornaria daquele momento em diante, finquei o pedaço menos antipático da panela e o levei à boca.

Mastiguei-o durante meio minuto, sorrindo.

Não estava ruim.

Mas o pedaço não cedeu, e fui obrigado a forçar mais os dentes.

Por volta do terceiro minuto de mastigação, minha mandíbula começou a doer.

A carne já tinha perdido o gosto, o suco, a textura.

Pensei comigo: “tentarei engolir esta merda inteira, seja o que Deus quiser”.

Fiz um glupt induzido e engasguei.

Quase vomitei.

O naco jamais passaria pela minha garganta.

Levantei afobado.

O anfitrião tinha os olhos em mim.

Ergui o dedão como se dissesse “muito saboroso o seu petisco”, e ele sorriu.

O problema não era um fiapo de nervo. A carne não partia pela metade, não esfarelava, não derretia.

Era um bloco compacto e uno – um agente do mal.

Era a “um-carne”.

Tinha tomado uma consistência esponjosa e perdia umidade progressivamente, de tal forma que a secura da coisa apoderava-se mais e mais do meu espírito.

De vez em quando meus olhos ficavam foscos, e eu repetia pra mim mesmo:

“É um fardo. Um fardo muito pesado.”

Procurei uma lixeira.

Os banheiros estavam ocupados e a cozinha, cheia de gente.

Voltei à mesa e olhei nos olhos de cada uma das pessoas, procurando expressão de solidariedade qualquer.

Para a minha surpresa, estavam todos elogiando a comida.

“Que tempero.”

“Que sabores exóticos.”

“É coisa de gourmet!”


Indignado, decidi que o melhor a fazer era oferecer o pedaço sinistro a um cão faminto.

Todo sítio tem cão.

E cão come qualquer coisa.

Cão é bicho feliz.

“Cão achará uma delícia essa merda aqui.”

Assobiei e nenhum cão apareceu.

Meus olhos reviraram mais uma vez e meu estômago gritou “burrrrden”.

Pensei em jogar o pedaço de carne no chão. Livrar-me dele, simplesmente.

Mas o lugar era todo gramado e havia o risco de alguém achar aquilo no dia seguinte.

Ou de pisar enquanto estivesse jogando peteca.

Cogitei esconder o pedaço de carne debaixo de algum móvel.

Nisso eu tinha experiência.

Quantas vezes jogara fora a maçã que mamãe colocava diariamente na minha merendeira.

No telhado, no armário, na gaveta, no vaso sanitário.

Mamãe conseguiu, dizendo “come tudo, Guilherme”, povoar o mundo de maçãs rejeitadas.

O ponto é que o pedaço de carne era uma espécie de césio 137.

Eu não podia escondê-lo em algum lugar sem que chamasse atenção ou matasse uma garotinha de doze anos.

Parei num canto da casa, debaixo de uma meia árvore.

Cuspi a carne na palma da mão.

Era nojenta.

Acendi um cigarro pra relaxar.

“Estava te procurando.”

“Quase me mata do coração, Joana.”

“Quê que você está fazendo aqui?”

“Nada. Só pensando.”

“Pensando em quê?”

“Na vida, na vida. Não tem cachorro aqui?”

“Não.”

“Tem certeza?”

“Tenho. E desde quando você pensa na vida?”

“Desde agora.”

“Chegou a alguma conclusão?”

“Não. Só que a vida é engraçada. Você mastiga, mastiga, mastiga e nunca consegue engolir.”

“Quê que deu em você?”

“Sei lá. Acho que virei baiano. Já viu como baiano adora metáfora?”

“Já.”

“Aquele cara que ganhou o Big Brother, lembra do tanto de metáfora que ele falava?”

“O problema é que ele não era só baiano.”

“É verdade.”

“Ele era baiano ‘barra’ professor de literatura.”

“Baiano ‘barra’ professor de literatura ‘barra’ outras coisas de âmbito metafórico.”

“Pois é.”

“Sabe onde tem um lixo?”

“Na cozinha.”

“Fora o da cozinha.”

“Nos banheiros.”

“Fora o dos banheiros.”

“Pra quê você quer o lixo?”

“Pra jogar fora isso aqui.”


E mostrei o objeto mastigado, babado, cinzento.

“Eca. Quê isso?”

“A carne do seu amigo.”

“Não parece carne.”

“Mas é. É uma carne má.”

“E quê que tem a carne má?”

“Dura! Não dá pra engolir.”

“Você não costuma comer carne em churrasco...”

“Ele me obrigou.”

“Onde você vai jogar isso?”

“Tenho planos. Precisamos criar a Sociedade da Carne, em que cada um carrega o fardo um pouco.”

“E como funciona a Sociedade da Carne?”

“Você fica na fila do banheiro e eu fico aqui. Aí você entra no banheiro, eu te passo a carne pela janela e você joga fora.”

“Eu não vou pegar nessa coisa.”

“Tá bom. Você entra no banheiro e me passa um papel higiênico pela janela. Eu enrolo a carne no papel higiênico e te passo de volta. Pode ser?”

“Pode.”

“Ótimo.”

“Por quê que você não fica na fila do banheiro?”

“Com a carne na mão? E se eu tiver que cumprimentar alguém?”

“Tá bom. Eu vou.”


E saiu.

Enquanto esperava que ela entrasse no banheiro, passei a carne de uma mão para a outra.

Na ausência de cachorro, procurei uma galinha.

Não achei galinha.

Acendi outro cigarro.

Pensei no anfitrião e decidi que não gostava mais dele.

Eu estava bem, eu estava quietinho comendo a minha castanha de caju antes de tudo acontecer.

Mas sempre tem o cara da carne.

“Prova.”

Você diz “não, obrigado”.

E ele insiste. “Anda, prova aí.”

Eu detesto o “anda, prova aí”.

Detesto especialmente o “anda”, porque parece que, além de provar, eu tenho que andar rápido.

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Súbito, a descarga do banheiro – sob cuja janela eu me escondo – é acionada.

Tremo de apreensão e fico atento aos mínimos ruídos.

Descubro que a pessoa que está lá dentro lava as mãos rápido demais e que, portanto, é indesejável à convivência.

“Depois pergunto pra Joana quem saiu do banheiro antes dela entrar.”

O ranger da porta se abrindo coloca-me em posição de alerta máximo.

Ouço a voz da Joana e penso comigo: “é agora.”

(Continua)



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